Zeferino's Diary


domingo, 4 de novembro de 2012

Hoje vou lhe usar

Modo de usar-se
Martha Medeiros



            "Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.

            Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.

            Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.

            Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.
            Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas.
Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.

            E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.

            Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.

            Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.






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sábado, 3 de novembro de 2012

A dor que dói mais

A dor que dói mais
Martha Medeiros


            Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

            Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.

            Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

            Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

            Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

            Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.







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O desamador

O desamador
Fabrício Carpinejar


            Tenho, sim, piedade daqueles que empregam o amor como forma de tirania.
            Que falam em vão do amor como se fosse fácil encontrá-lo.
            Que não exercitam a delicadeza, a retribuição e o cuidado atento, e gritam com quem quer apenas sussurrar.
            Armam-se de autoritarismo, de vassalagem, de discórdia.
            Não aceitam o contraponto, a discordância.
            Para assegurar o domínio, rebaixam seu par para que ele fique dependente, menor, indefeso (não forte, confiante ou otimista, como deveria ocorrer e acarretaria independência).
            Que acreditam que o parceiro ou parceira não tem escolha e que ficará se sujeitando aos seus terrores e dissabores.

            Da figura do desamado, o que sofre solitário, surge o desamador, o que desagrega a solidão e faz sofrer.

            Porque ele recebe o amor e troça de sua força.
            Seduz por diversão e hábito, pouco se importando com o envolvimento que se segue.
            O desamador dirá depois de usar o amor: "Não prometi nada."
            Lavará as luvas para não comprometer as mãos.
            Omitirá compulsivamente, que é mais repulsivo do que mentir.
            O desamador não tem nada a perder, pois não ama.
            O desamador chamará qualquer cobrança de neurose, de doença, de loucura.
            Fará a pessoa se sentir torta, infeliz, incriminada de rancor.
            Depois ainda contará para os seus amigos e amigas que está sendo perseguido, e apagará o que não combina com a sua versão.
            O desamador não fica doente; adoece o mundo.
            O desamador não é facultado ao ódio, quem dera! O ódio ainda facilita o amor.
            O desamador recorre à intolerância.
            Chora somente no sufoco, pede desculpas no momento em que é desmascarado, mas não muda, continuará maltratando com a indiferença.
            Ele não é bom, muito menos ruim; é apático.
            Seu autoritarismo é a negação da fraqueza.
            Tudo que acontece de errado em sua vida vai transferir para quem está ao seu lado.
            O desamador emprega a crueldade da reticência, do subentendido; não assume as suas escolhas.
            Induz sua companhia a entender, sem dizer nada.
            O desamador gera culpa, dúvidas, incertezas.
            Não declara sim ou não.
            Delicia-se com a confusão.
            Custo a crer que o desamador nasceu do ventre de uma mulher.






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O patinho feio

Por que as pessoas sofrem?
Parábola

            — Vó, por que as pessoas sofrem?
            — Como é, minha neta?
            — Por que as pessoas grandes vivem bravas, irritadas, sempre preocupadas com alguma coisa?
            — Bem, minha filha, muitas vezes porque elas foram ensinadas a viver assim.
            — Vó ...
            — Oi ...
            — Como é que as pessoas podem ser ensinadas a viver mal? Não consigo entender. Na minha escola a professora só me ensina coisas boas.
            — É que elas não percebem que foram convencidas a ser infelizes, e não conseguem mudar o que as torna assim. Você não está entendendo, não é, meu amor?
            — Não, Vovó.
            — Você lembra da estorinha do Patinho Feio?
            — Lembro.
            — Então ... o Patinho se considerava feio porque era diferente. Isso o deixava muito infeliz e perturbado. Tão infeliz, que um dia resolveu ir embora e viver sozinho. Só que o lago que ele procurou para nadar havia congelado e estava muito frio. Quando ele olhou para o seu reflexo no lago, percebeu que ele era, na verdade, um maravilhoso cisne. E, assim, se juntou aos seus iguais e viveu feliz para sempre.
            — O que isso tem a ver com a tristeza das pessoas?
            — Bem, quando nascemos, somos separados de nossa Natureza-cisne. Ficamos, como patinhos, tentando aceitar o que os outros dizem que está certo. Então, passamos muito tempo tentando virar patos.
            — É por isso que as pessoas grandes estão sempre irritadas?
            — É por isso! Viu como você é esperta?
            — Então, é só a gente perceber que é cisne que tudo dará certo?
            — Na verdade, minha filha, encontrar o nosso verdadeiro espelho não é tão fácil assim. Você lembra o que o cisnezinho precisava fazer para poder se enxergar?
            — O que?
            — Ele primeiro precisou parar de tentar ser um pato. Isso significa parar de tentar ser quem a gente não é. Depois, ele aceitou ficar um tempo sozinho para se encontrar.
            — Por isso ele passou muito frio, não é, vovó?
            — Passou frio, fome e ficou sozinho no inverno.
            — É por isso que o papai anda tão sozinho e bravo?
            — Não entendi, minha filha?
            — Meu pai está sempre bravo, sempre quieto com a música e a televisão dele. Outro dia ele estava chorando no banheiro ...
            — Vó, o papai é um cisne que pensa que é um pato?
            — Todos nós somos, querida. Em parte.
            — Ele vai descobrir quem ele é de verdade?
            — Vai, minha filha, vai. Mas, quando estamos no inverno, não podemos desistir, nem esperar que o espelho venha até nós. Temos que exercer a humildade e procurar ajuda até encontrarmos.
            — E aí viramos cisnes?
            — Nós já somos cisnes. Apenas temos que deixar que o cisne venha para fora e tenha espaço para viver e para se manifestar.
            — Aonde você vai?
            — Vou contar para o papai o cisne bonito que ele é!

            A boa vovó apenas sorriu!





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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O curioso caso de Benjamin Button


            Parece que o personagem "Benjamin Button" - estrelado por Brad Pitt na película "O curioso caso de Benjamin Button" - encarnou.
            Não como um ser humano, entretanto. E com um destino menos infeliz (até agora) ... rs rs rs


            Sinopse e detalhes
Nova Orleans, 1918. Benjamin Button (Brad Pitt) nasceu de forma incomum, com a aparência e doenças de uma pessoa em torno dos oitenta anos mesmo sendo um bebê. Ao invés de envelhecer com o passar do tempo, Button rejuvenesce. Quando ainda criança ele conhece Daisy (Cate Blanchett), da mesma idade que ele, por quem se apaixona. É preciso esperar que Daisy cresça, tornando-se uma mulher, e que Benjamin rejuvenesça para que, quando tiverem idades parecidas, possam enfim se envolver.



É possível viver para sempre
Água-viva cria mecanismo para driblar a morte - e isso preocupa os cientistas
por Marcos Ricardo dos Santos
Abril, 2009

            Geralmente, as águas-vivas não vivem mais de 6 meses.
            Mas uma delas, a Turritopsis dohrnii, conseguiu driblar esse destino - e, de quebra, revolucionar os conceitos de vida e morte.
            Ela tem a capacidade de rejuvenescer indefinidamente as próprias células, ou seja, é essencialmente imortal. Não pode morrer de causas naturais; sua única possibilidade de deixar este mundo é ser comida por algum predador.
            A imortalidade do bicho foi descoberta pela bióloga italiana Maria Pia Miglietta, que trabalha na Universidade da Pensilvânia e viajou o mundo todo para estudar a super criatura.
            O corpo das águas-vivas assume vários formatos durante a vida. Mas a Turritopsis dohrnii consegue fazer esse processo andar ao contrário, como se fosse uma borboleta que volta ao estágio de larva.
            O rejuvenescimento ocorre depois que o animal se reproduz e também em momentos de crise, se ele está ferido ou sem alimento. Uma verdadeira mágica evolutiva.

            O animal, que já foi encontrado na Flórida, na Itália, na Espanha, no Panamá e até no Japão, se espalha pegando carona na água que os navios usam como lastro. Sem saber, eles coletam água cheia de Turritopsis e ao chegar a seu destino, em outra parte do planeta, descarregam tudo no oceano - onde o bicho imortal começa a se reproduzir.
            Ninguém sabe o tamanho da população de Turritopsis dohrnii, e isso está preocupando os cientistas. "É uma invasão mundial sem precedentes", afirma o biólogo John Darling, da Agência Americana de Proteção Ambiental.

            O medo dos especialistas é que a Turritopsis possa se multiplicar demais e desequilibrar os ecossistemas do planeta, levando à extinção de outras espécies. Mas ela também pode trazer o bem: biólogos italianos acreditam que decifrar os mecanismos de rejuvenescimento desse animal possa levar a uma cura para o câncer.
            É esperar para ver - como boa highlander, a água-viva não tem nenhuma pressa.


A eternidade em 3 atos
Como a Turritopsis consegue se perpetuar

1. Envelhecer
            A vida das águas-vivas tem 3 fases: larva, pólipo e medusa (quando adquirem sua aparência mais conhecida). Ao chegar à fase medusa, esses animais estão prontos para se reproduzir - e morrer logo depois.

2. Regredir
            Usando um mecanismo que a ciência ainda não sabe explicar, a Turritopsis consegue voltar do formato de medusa para o de larva. Suas células perdem as funções específicas e regridem a um estágio primitivo.

3. Recomeçar
            O animal começa a se desenvolver novamente, como se tivesse acabado de nascer. As células vão se diferenciando e assumindo funções especializadas (digestão, reprodução etc.). O processo pode ser repetido indefinidamente.








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Tire o atraso

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Pacto

ALMAS   PREDESTINADAS


            Duas almas são predestinadas quando tem uma missão a cumprir juntas, e marcaram um encontro lá do outro lado para acontecer nesta vida, onde pactuaram voltar e se unirem realizando determinada missão
            Quando as almas se encontram, tudo pode acontecer, podendo haver a explosão do amor não vivido em outras vidas.
            Este amor chega sem ter dia marcado ou momento marcado para acontecer.
            Simplesmente chega e se instala, criando uma verdadeira orgia de sentimentos alegres, que modificam todos os propósitos e conceitos até então firmados. O encontro de duas almas tem como foco principal, não a aparência física, mas a afinidade entre elas existente, e o que o Destino a elas preparou, tal como o porque e o quando tudo deve acontecer.

            Existem momentos de tristeza, causada por uma dúvida que machuca, que gostaria de  saber o porque de não se terem encontrado antes, ainda mais quando o momento desse encontro acontece quando não é mais possível extravasar toda a plenitude do amor que trazem, quando não é mais possível viver a alegria de amar e querer compartilhar a vida com o outro.
            Enfim, como essas almas sentem-se sem a possibilidade de realizar este amor em total plenitude, o que causa um inexplicável sentimento de saudade de algo que não foi vivido.
            Uma saudade doída de algo vivido em outras vidas, saudade daquilo que poderia ter sido, mas que por alguma razão não o foi.

            Reconhecem porém que não haverá retorno para suas pretensões, e mesmo estando distantes, entendem a alegria, a tristeza, o querer um do outro.

            Estas almas falam além das palavras, e aliás, delas não precisam, pois se comunicam, se encontram, se amam pelo éter, por todo o espaço. Se o reencontro ocorrer no tempo certo, estas almas afins se entrelaçam e buscam a forma de juntas ficarem, num processo contínuo de reaproximação até a consumação do resgate daquilo que vieram cumprir.

            Se diferente for, se o reencontro ocorre num espaço tempo diferente do que suas realidades possam permitir, ainda assim estas almas ficam marcadas, e nunca conseguirão se separar, mesmo que os corpos se separem, elas continuarão a se sentir, pois almas que assim se encontram não mais se sentirão sozinhas, pois reconhecerão a necessidade que têm uma da outra para toda a eternidade.

            São almas que atravessam os tempos, as muitas passagens, buscando o resgate final de seu amor, até que em determinada passagem conseguem cumprir o resgate, tendo então seu descanso final.
            Quando conseguem ter ...








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